• Audrey Fontana

UM POUCO DOS BASTIDORES DE “ROBERTA, UMA ÓPERA ROCK”


Foto: Annelize Tozetto

“Roberta, uma Ópera Rock” foi uma das produções mais aguardadas pelos amantes de teatro musical durante a última edição do Festival de Curitiba. A peça, que passou pelos palcos da Praça Santos Andrade e Centro Cultural Boqueirão, fez parte da programação do Circuito Aberto e foi gratuita. O roteiro, originalmente nomeado de “Patrícia, uma Ópera Rock", foi escrito por Roberto Innocente, diretor, dramaturgo, produtor e ator italiano, atuante no Brasil desde 2005. A produção e a troca de título fazem parte de uma grande homenagem ao autor, que morreu de Covid em 2021. O espetáculo conta com Nena Inoue, vencedora do Prêmio Shell, na direção artística, junto com Maurício Vogue, e composição e direção musical do maestro Alessandro Sangiorgi.


A peça narra a vida de Roberta, uma jovem muito abalada que acaba se relacionando com um traficante de drogas. Para manter o vício ela é usada para conquistar e fidelizar novos usuários. Roberta então conhece e se apaixona por Giovanni, um rapaz que ao se deparar com a vida infeliz da personagem principal, decide ajudá-la a se curar, porém conflitos de interesse entre traficante e mocinho acabam mudando drasticamente o rumo da vida dos personagens.


Foto: Annelize Tozetto

Eu procurei a Margheurita Dissá, atriz, cantora e dançarina e formada pelo Projeto Broadway que, junto com os também formados pela escola, Madu Forti e Gustavo Godoy, fez parte do elenco dessa produção para me contar um pouco dos bastidores de “Roberta, Uma Ópera Rock”, confira abaixo.


Depois de um longo período sem produções teatrais, em função da pandemia de Covid, queria saber qual foi a sensação de se apresentar para grandes plateias novamente. Margheurita nos conta que “a emoção de estar no palco de volta, depois de tudo o que a gente viveu, principalmente enquanto artistas, que ficamos desamparados e sem o nosso ofício, é muito forte”, a atriz ainda acrescenta que “isso se reflete na vontade das pessoas de estarem ali, tanto dos atores, que querem muito estar trabalhando novamente, e fazendo a nossa arte, quanto do público, que quer muito receber isso. Eu sinto que a energia de troca entre quem está no palco e a plateia se tornam ainda mais palpáveis nas experiências pós pandemia, pois a gente quer muito viver a experiência que o teatro nos proporciona novamente”.


Eu perguntei como foi a dinâmica do elenco e como era a relação com a equipe, Margheurita disse que a sintonia do grupo e a energia que foi estabelecida em tão pouco tempo era muito forte. “A gente tem uma vibe de trupe, de companhia de teatro, que respeita e admira o trabalho individual de cada um e que está ali para crescermos juntos e para trocar durante os ensaios. A nossa diretora falou muito sobre generosidade em cena, sobre estar disponível e sobre trocar com o outro, porque apesar de ser um musical o substantivo é o teatro. A base do jogo teatral foi muito forte nesse elenco e isso foi maravilhoso”.

Foto: Annelize Tozetto

Eu estava curiosa para saber como foi o processo de criação e os ensaios. A atriz nos disse que houve um trabalho musical intenso, para aprender todas as músicas e muito trabalho de mesa e exercícios de improviso para entender as personagens e leituras dramáticas das cenas para digerir o texto. Margheurita me contou que essa “foi uma experiência muito positiva, pois foram poucos os processos criativos antes desse em que a gente tinha tempo de fazer bastante trabalho de mesa e de texto antes de pensar em improvisar e marcar as cenas. E essas montagens das cenas foram bem diferentes do que eu estava acostumada, pois foi muito a partir dos jogos de improviso”. Ela me contou que os atores propunham as cenas e que os diretores sugeriam pequenas mudanças, desse modo “os atores propuseram bastante cenicamente nesse processo e isso foi muito bonito de ver. Poucas coisas foram apenas marcadas, quase tudo era proposta cênica dos atores e isso foi bem legal”.

Foto: Annelize Tozetto

Eu queria saber da saber da atriz qual reação ela achava que o público teria e Margheurita nos disse que antes da estreia ela tinha a impressão que as pessoas não sabiam o que esperar do espetáculo, “porque é uma proposta muito diferente, é uma ópera rock que aconteceu num palco de rua, com um elenco super jovem, teve romance, teve drogas, se passou na década de 80, são muitas informações. Eu acho que as pessoas tiveram uma experiência muito intensa, acho que elas se emocionaram, se apaixonaram, sofreram junto com esse casal e se sensibilizaram muito com todos os personagens dessa história”.

Eu perguntei para Margheurita como foi homenagear Roberto Innocente, uma figura marcante na cena teatral de Curitiba. A atriz me contou que esse foi um dos pontos de delicadeza e intensidade desse projeto, que o fato da peça ter sido escrita por esse grande artista e fundador do grupo Arte da Comédia deixou todo o processo muito mais simbólico e forte. “Foi uma perda muito sentida por toda a comunidade do teatro daqui de Curitiba. O projeto já tinha sido aprovado, mas ele se chamava Patrícia, Uma Ópera Rock e quando os diretores assumiram o projeto, quiseram fazer essa homenagem de mudar o nome de Patrícia para Roberta. Durante a peça teve vários pequenos easter eggs e pequenas homenagens ao Roberto e eu ficava emocionada cada vez que surgia um pequeno detalhe associado a alguma das obras dele com a Arte da Comédia”.

Foto: Annelize Tozetto

Eu estava muito curiosa para saber como foi o processo de audição para compor o elenco e, a artista me contou que ocorreram três fases. A primeira fase do processo, que ocorreu em dezembro de 2021, foi composta por um vídeo cantando e um monólogo, já a segunda fase foi presencial, com proposta de dança, canto e interpretação de improviso. Os selecionados que passaram para a terceira fase participaram de um workshop de três dias com os diretores, o maestro e o coreógrafo. Ela me disse que “foi um processo bem intenso, porque eu não tinha nada de repertório de rock, mas o Rico, o Rodes e o Colby [professores da Escola Projeto Broadway] foram muito solícitos quando eu mandava mensagem perguntando e pedindo ajuda, e me ajudaram muito a encontrar algumas propostas de repertório”.


Num primeiro momento, a atriz não foi selecionada e me disse que “veio o prazo da resposta, mas foi uma surpresa, pois eles ainda não tinham definido o elenco e pediram para fazer mais um workshop, já em janeiro, com um grupo de 14 atores, para chegar em um elenco de 10 pessoas. Eu sabia que a concorrência entre as meninas era um pouco maior, pois tinha menos personagens femininas e mais mulheres no grupo da audição. Foram mais dois dias bem intensos, com muitas horas de workshop com o maestro, aprendendo as músicas, audição de dança, pois as coreografias são bem puxadas, e vários exercícios de improviso com os diretores. Eu tinha saído bastante esperançosa, mas infelizmente não fui selecionada para o elenco naquele momento”.


Porém, em função de outra atriz não poder mais fazer parte do elenco, Margheurita recebeu o aceite. “Um mês depois do elenco já estar ensaiando, o pessoal da produção me ligou e me disseram que estavam procurando uma atriz que pudesse aprender todos os papéis femininos, para estar no elenco como stand-in. Eles precisavam que eu estivesse em todos os ensaios e aprendesse todas as coreografias para participar como ensamble, mas que eu precisava mesmo aprender todas as personagens femininas porque caso tivesse um imprevisto com alguma das outras atrizes eu pudesse substituir e a peça não ficasse desfalcada”.

Foto: Annelize Tozetto

Ainda, pedi para que Margheurita compartilhasse algumas dicas para aqueles que também desejam seguir carreira como ator e atriz de teatro musical. A atriz lembrou que em Curitiba temos uma cultura de teatro musical mais defasada e que nossas referências vem muito de São Paulo, mas que lá existe outra forma de se fazer teatro. “Aqui em Curitiba, que tem uma cultura do teatro muito mais forte, espera-se que os atores de teatro musical tenham um pé no teatro muito bem estabelecido. Isso significa ter um corpo muito disponível e uma familiaridade com o improviso. Então uma dica que eu daria é: vão fazer aula de teatro, continuem estudando música e dança, mas façam aula de teatro e fiquem confortáveis com exercícios de improviso, além disso, criem repertório de improviso, porque eu senti que isso faz muita diferença na hora de montar um espetáculo e trabalhar nesse mercado aqui da cidade. Talvez se seu foco seja ir para São Paulo e Rio de Janeiro, tenham outras questões que precisam ser priorizadas, mas aqui em Curitiba eu acho que tem que priorizar o teatro mesmo, que é isso que as produções esperam muito”.


E, para terminar, Margheurita compartilhou uma dica muito valiosa, “que a gente pode e deve estudar muito e continuar se aperfeiçoando como artista e dar o melhor da gente na hora de fazer uma audição, e mesmo assim pode ser que você não passe. Porque a equipe criativa tem uma visão muito específica do perfil de ator que eles estão procurando e você pode ser maravilhosa mas não se encaixar no que eles querem, então é tudo muito subjetivo nesse mercado, e por isso a gente tem que estar com uma cabeça muito boa e ter uma consciência muito limpa daquilo que você pode fazer e do trabalho que pode entregar e, entender que está na mão deles. Eu gosto muito de pensar que se for para ser vai ser”.


Eu fiquei muito feliz em poder conversar com essa atriz, cantora e bailarina formada pelo Projeto Broadway e atuante no mercado profissional curitibano. E aí? Você assistiu “Roberta, uma Ópera Rock” no Festival de Curitiba? Nos conte nos comentários o que você mais gostou.


Sobre mim: Sou uma engenheira que não consegue viver sem arte e encontrou no teatro musical uma maneira mais divertida de encarar a vida e no Projeto Broadway uma segunda casa. Prazer, Audrey.

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